ISTAMBUL e WASHINGTON - Com a ajuda da CIA, governos árabes e a Turquia aumentou significativamente o apoio militar à oposição síria nos últimos meses, expandindo-se o transporte aéreo de armas e equipamentos para a revolta contra o presidente Bashar al-Assad, de acordo com informações de registros aéreos, entrevistas com funcionários de diversos países e documentos de comandantes rebeldes. Nesta manhã desta segunda-feira, dezenas de morteiros das forças rebeldes atingiram uma área de segurança máxima da capital, montada para proteger a residência do presidente, configurando um dos maiores ataques em dois anos de conflito.
O tráfego aéreo, que começou em pequena escala no começo de 2012 e continuou sem interrupção até o segundo semestre, se expandiu para um fluxo firme e muito mais pesado no final do ano passado, mostram os dados. Cresceu a ponto de totalizar mais de 160 voos de carga militar em aviões de Jordânia, Arábia Saudita e Qatar pousando no aeroporto de Esenboga, perto de Ancara, e, num grau menor, em outros aeroportos turcos e jordanianos.
A evolução do tráfego aéreo acarretou mudanças na guerra dentro da Síria, com os rebeldes expulsando o Exército sírio em alguns territórios no meio do ano passado.
Mesmo que o governo de Barack Obama tenha publicamente negado que ofereça qualquer ajuda letal aos rebeldes, o envolvimento da CIA com armas e logística - embora em grande parte oferecendo consultoria, dizem funcionários americanos - demonstrou que os Estados Unidos estão dispostos a ajudar seus aliados árabes no lado mortífero da guerra civil.
De escritórios em locações secretas, oficiais da inteligência americana ajudaram os governos árabes a comprar armas, inclusive grandes aquisições da Croácia, e ajudaram fazer a triagem das armas entre os grupos rebeldes, de acordo com oficiais americanos. A CIA se recusou a comentar o fornecimento de armas ou seu papel nele.
Os envios de armamentos também destacaram a competição pelo futuro da Síria entre os Estados muçulmanos sunitas e o Irã - a teocracia xiita continua sendo a principal aliada de Assad. O secretário de Estado John Kerry pressionou o Iraque, no domingo, a esforçar-se mais para deter os carregamentos iranianos por seu espaço aéreo, enquanto um avião do Qatar com carga para os rebeldes pousava em Esenboga.
Pelo menos 3,5 mil toneladas de equipamento
Opositores sírios, alguns legisladores e funcionários americanos argumentaram que os russos e iranianos estão ajudando o governo Assad e, por isso, armar os rebeldes se faz mais necessário.
O governo turco supervisionou todo o programa, dos caminhões às cargas dos navios, oficiais sírios afirmam.
- Uma estimativa por baixo desses voos indicaria o transporte de 3,5 mil toneladas de equipamento - afirma Hugh Griffiths, do Instituto Internacional de Estudos da Paz de Estocolmo. - A intensidade e a frequência desses voos sugerem uma operação com logística militar clandestina bem coordenada e planejada.
Esses vários canais de logística formaram o que um ex-funcionário americano com informações sobre o esquema chamou de “catarata de armas”. Funcionários americanos, rebeldes e a oposição turca descreveram o apoio árabe como um segredo aberto, mas também disseram que o programa está repleto de riscos, incluindo a possível entrada da Turquia e da Jordânia na guerra e a provocação de uma ação militar do Irã.
Mesmo assim, comandantes rebeldes criticaram o envio como insuficiente, dizendo que as quantidades de armas que eles recebem são muito pequenas, e o tipo de armamento, muito leve para lutar com o Exército de Assad de uma maneira efetiva. Eles também acusaram os distribuidores de armas de serem parcimoniosos e corruptos.
Dois outros comandantes, Hassan Aboud, do grupo islâmico Soquor al-Sham, e Abu Ayman, do Ahrar al-Sham, disseram que independentemente de quem esteja decidindo quais grupos recebem quais armas, o trabalho estava sendo malfeito.
- Há falsas brigadas do Exército Livre da Síria se dizendo revolucionárias, e quando elas obtêm as armas, as vendem no mercado - diz Aboud.