Monday, 25 March 2013

Musharraf retorna sob ameaça do Talibã

KARACHI — O ex-presidente do Paquistão Pervez Musharraf voltou ontem para casa, depois de quase quatro anos de autoexílio, para participar das eleições parlamentares. Ele deixou o país do Sul da Ásia em 2009. No ano anterior, Musharraf largara o poder — conquistado num golpe militar em 1999 — após ser ameaçado com impeachment pelo novo governo eleito. Desde então, vivia em Londres e Dubai, onde morava numa parte chique dos Emirados Árabes.
Por causa do retorno, ele está recebendo ameaças de morte do grupo extremista Talibã, que divulgou um vídeo no sábado declarando que despacharia homens-bomba e atiradores para matá-lo e “enviá-lo ao inferno”. Musharraf tentou minimizar as ameaças, mas um comício que deveria realizar na tarde de ontem foi cancelado. Assassinos da al-Qaeda já tentaram matar o ex-líder militar pelo menos três vezes.
Cadeia ainda é possibilidade
O ex-presidente ainda enfrenta a possibilidade de ir para a cadeia. Em fevereiro de 2011, ele recebeu uma ordem de prisão do tribunal antiterrorismo do Paquistão sob acusação de negligência na segurança da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, assassinada pelo Talibã em 2007. Ele também é vinculado à morte de um líder separatista na província do Baluquistão. Musharraf, porém, nega qualquer envolvimento. Para evitar sua prisão ao retornar ao país, uma fiança foi concedida ao ex-presidente antecipadamente. Mas ele ainda pode ser detido no futuro.
Musharraf espera recuperar a influência política para que seu partido possa ganhar assentos na eleição geral, marcada para o dia 11 de maio. Ele enfrentará uma concorrência feroz nas urnas, inclusive do ex-primeiro-ministro Nawaz Sharif, derrubado pelo general num golpe militar, em 1999.
— As pessoas diziam que eu não viria. Onde estão essas pessoas agora? Estavam tentando me assustar. Só temo a Deus, ninguém mais — disse Musharraf no aeroporto de Karachi, enquanto mais de mil pessoas gritavam palavras de apoio. — Para onde foi o Paquistão que deixei cinco anos atrás? Meu coração chora lágrimas de sangue quando eu vejo o estado do país hoje. Eu voltei por vocês. Quero restaurar o Paquistão que deixei.
Um governo interino liderado pelo recém-nomeado premier Hazar Khan Khoso, um ex-juiz, fará os preparativos para as eleições. O ex-presidente terá apenas dois meses para tentar convencer os eleitores de que seu partido político pode fazer o que os outros não têm feito.
Os militares têm governado o país por mais da metade de sua história de 66 anos, por meio de golpes de Estado. É a instituição militar que define a política externa e de segurança, mesmo quando os governos civis estão no poder. Mas os poderosos generais têm interferido muito menos na política, hoje, do que na época de Musharraf.
O Partido Popular do Paquistão, no governo atualmente, teve pouco sucesso no combate à corrupção, aos frequentes cortes de energia e em reconstruir a infraestrutura local. Além disso, o Paquistão pode, em breve, ter de recorrer ao Fundo Monetário Internacional novamente para manter a economia funcionando e evitar uma crise na balança de pagamentos.